Ser jornalista é ser poeta
Mais um fim de tarde, quinta-feira que antecede o feriado de páscoa, e estou voltando do trabalho para casa. O trajeto de Criciúma para Içara às vezes se torna igual e cansativo. Meus olhos parecem expurgar apenas o inevitável e “turva” para o latente que se recicla nos segundos onde passa o cenário. Puro engano.Que alívio. Ao meu lado, no ônibus, conheço um menino falante, de 8 anos, que reside no balneário de Barra Velha. É sua primeira visita a Criciúma. Contou-me, com o encanto e a pureza que ainda move os pequenos, que foi ao médico e descobriu que possui uma lesão irreversível nos olhos e irá ficar cego. Nesse segundo que ficou estático, o meu ser jornalista poeta escreveria uma sensível reportagem com o título: O menino em busca de luz. Delinearia em minhas palavras que sua suposta ausência de visão lhe manifesta mais horizontes do que em muitos de nós, que temos dois olhos, ditos saudáveis. Seu olhar brilhante das chamas que exalam da sua essência infantil, se emociona, ao ver pela primeira vez um parque de diversões. Um sonho de menino. Alcançar o céu na montanha russa antes que as cores se apaguem.
Ser jornalista é ser poeta capaz de prenhar e parir VIDAS.
É criar palavras de amor para quem sabe, lhe dizer que o colorido da beleza está escondido na escuridão. É ter nas mãos e na voz a alquimia para mostrar a muitos meninos, meninas, homens e mulheres, que os raios estão escondidos no crepúsculo. Que nossa cegueira pode ser irreversível mas nossa capacidade de ver é eterna. Ser jornalista é ser poeta. É ver o cotidiano diário com novos olhos.
Quem não consegue ser, é porque sua visão está ofuscando seu coração. Não enxerga que o mesmo jardim amanhece sempre diferente. Com uma outra seiva. Disseminando um novo perfume. Ser poeta jornalista é sabe ouvir o seu próprio silêncio no barulho dos outros. Ser poeta jornalista e se permitir ter olhos de raios-X. Ir além das “imagens” que maquiam as nossas casca e nos transformam em iguais, embora únicos.
Ser poeta jornalista é ir onde pôr-do-sol espreguiça. É colher o dia vendo o que existe no que não aparece. No insípido. No incolor.
Ser jornalista poeta é ousar caminhar nas estradas e também nas trilhas. É captar nos rostos anônimos os grandes heróis. Seres que do seu suor, germinam a terra em cio e o pão nosso de cada dia. Porque para o jornalista poético não existe o SER mais importante. Todos são divinos. Ser poeta jornalista é desenhar nas letras o significado dos personagens que transmutam e compõem o poema da reportagem. Ser jornalista poeta é buscar nas entranhas a força para jorrar a água que mata a sede e brota novas sementes. É exalar esperança no futuro que se faz presente e no presente que é certeza de futuro.
Ser poeta jornalista é acreditar que naqueles olhos cansados pela janela no tempo o infinito pode ser alcançado. Ser jornalista poeta é estar lá. Ainda que o menino teime em correr na terra que já não deixa pegadas.
Maristela Benedet
Colunista Rádio Criciuma
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
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